Nadando no Lago de Suco de Uva

Sobre o blog? Não sei. O que é um blog?

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Domingo, Novembro 23, 2003
 
"Oi. Interessante essa comparação de portas com pessoas. Nunca tinha pensado que todas as coisas se assemelham aos humanos, mas faz sentido, de certa forma. E, já que você filosofou sobre isso, talvez possa responder: porque a expressão "burra como uma porta"?! Abraços. "
Tati

Oi. Olha, as pessoas costumam confundir as coisas por pura falta de observação. As portas não são burras, simplesmente a maioria delas é quieta e reservada. Só porque elas não ficam tagarelando sobre todas as coisas que acontecem ao seu redor e porque elas não respondem a praticamente nenhuma pergunta (mas isso também acontece com paredes e janelas, por exemplo) não se pode acusá-las de ignorância. Elas simplesmente não suportam perder tempo com assuntos que não lhes interessa. No mundo de hoje, ética e respeito, valores pelos quais as portas ainda matam e vivem, são vistos como sinônimo de burrice, o "Inteligente" é aquele que consegue passar a perna no outro....portas não têm pernas, não gostam de fazer intriga nem fofoca (não são responsáveis por quem gosta de "ouvir atrás das portas") e acabam discriminadas por isso.
Abraços!

"Ciúmes????? vc é a namoradinha do Ed é??? ihihihihih =P brincadeirinha =D, bjus e valeu pela visita!!! "
Gi

Gi, antes fosse, antes fosse. O Edmund não me dá a mínima, ficamos internados quinze dias juntos, passamos momentos maravilhosos, mas acho que ele nem se tocou do quanto de sentimento dedico a ele- eu o amo do fundo do meu fígado (é maior que o coração), mas ele não me nota. E o cabide dele me detesta, o que reduz minhas chances a algo próximo de zero. Mas sim, fiquei com ciúmes. Obrigada você também pela visita. beijos.

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Segunda-feira, Novembro 17, 2003
 
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Pensei em esperar mais um mês, mas antes disso fui chamada de volta a este blog. Por quem? Pelas paredes, oras, quem mais vem aqui? Falando nisso, gostaria de entender qual é o problema das pessoas com as paredes. Quando disse que apenas elas liam este blog, recebi uma estranha reação de rejeição por parte daquelas paredes leitoras que transformaram-se em pessoas durante alguns segundos para comentar o post e depois voltaram a ser paredes, sem grande dificuldade.

Ser chamado de parede não é ofensivo, problema seria se eu os chamasse de portas. Não sei por que também, afinal de contas, as portas são (como as paredes) seres vivos complexos. Algumas são fechadas, introspectivas, na delas, outras são abertas, simpáticas, convidativas. Algumas reclamam de tudo, rangem, empenam, irritam-se à toa. Enfim, o mundo das portas e de todos os outros pedaços da casa e coisas da construção civil assemelha-se bastante ao mundo dos humanos.

Na verdade todas as coisas são meio humanas, de acordo com o ângulo que usamos para olhá-las. Mas tudo bem, se ofende, não chamo mais ninguém de parede.
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Quinta-feira, Outubro 30, 2003
 
Procura-se



Estamos à procura desta pessoa. Há um mês e um dia ela desapareceu deste recinto (e ninguém sentiu sua falta..ninguém sequer percebeu). Não usa óculos o tempo todo, só para ler e escrever. Como esse auto-retrato-falado foi feito diante do computador e ela estava de óculos e cabelo preso, ficou assim.

Aparentemente inofensiva, trata-se de uma criatura extremamente perigosa e altamente descontrolada, sendo incluída na categoria de séria ameaça à sociedade organizada (à sociedade desorganizada ela não representa ameaça alguma.).

Esta criatura não sabe desenhar no Paint Brush, como dá para perceber. Mas ela é mais ou menos assim. Olhos e cabelos castanhos, pele branca. É claro, pode ter sumido, pode ter ficado loira, ruiva, pintado a pele de verde, se disfarçado de folhagem....mas enfim, se você a vir, comunique-se aqui ou pelo e-mail lunagarden@bol.com.br. Suas informações serão encaminhadas às autoridades e sua identidade será mantida no mais absoluto sigilo.
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Segunda-feira, Setembro 29, 2003
 
Foi só agradecer às pessoas que apareceram que elas sumiram novamente. Ok. Olá, paredes. Blog tem paredes?
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Ouvi falar a semana inteira sobre a chegada da prima Vera. Não sou muito ligada à essas coisas de família e não consegui recordar-me exatamente de qual prima tanto está se falando. Estranho, porque apesar de agora não mantermos mais tanto contato, eu e meus primos fomos criados praticamente juntos, almoçando todo domingo na casa dos meus avós....será que depois de tantos anos rejeitando a moça a família agora resolveu convidá-la para nos fazer uma visita?

O fato é que em todas as reportagens sobre ela há uma profusão de imagens de flores, o que me leva a crer que ela trabalhe em uma floricultura...na verdade deve ser a dona de uma floricultura, para merecer ser citada em todos os telejornais, jornais impressos, revistas e outros meios de comunicação. Não simplesmente uma floricultura, mas uma multinacional...uma rede internacional de floriculturas que arrecada bilhões de dólares anualmente. Certamente no final desta semana haverá uma reunião de família para que sejamos apresentados à ilustre prima, o que não me agrada, pois não me dou muito bem com meus primos e tios, eles são muito estranhos e não se interessam em manter grandes contatos comigo.

Pela elevada posição social, essa tal Vera deve ser muito esnobe e, se realmente aceitar o convite e for à reunião, nos olhará de cima, situação pela qual não me interesso em passar. Posso também estar enganada e essa prima na verdade ser legal, simpática e simples, apesar de exercer o mais alto cargo de chefia na empresa de sua propriedade. Bem, o jeito vai ser ir até esse evento familiar e aturar os parentes com o sorriso social congelado, espero que a prima Vera me surpreenda positivamente, mais um primo chato e esquisito seria demais para minha pobre paciência. Nada mais posso fazer senão aguentar a tal prima durante alguns meses...pelo visto ela vai ficar um tempo considerável e logo que for embora, ao que ouvi dizer, outro parente virá nos visitar ...apesar de ter o mesmo nome da prima, Vera, julguei tratar-se de um rapaz (ao que entendi deve ser irmão dela), terei que ter paciência redobrada porque me parece que ele é meio esquentadinho, deve ser muito alto e forte (ou gordo) porque só o tratam pelo nome no aumentativo.

Não sei exatamente o que aconteceu para termos essa invasão de parentes de repente, mas só o que há para fazer é ensaiar minha simpatia para gastá-la bastante quando for apresentada à essa prima.

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Domingo, Setembro 28, 2003
 

Não menti. Tem uma listra preta na caixa das minhas vitaminas e eu poderia jurar que se tratava de um medicamento poderosíssimo...mas são apenas vitaminas. Decepção. Não que eu quisesse ser louca, mesmo porque já disse que não sou louca, aliás, não sou nada além de uma pessoa profundamente normal...e superficialmente também. O chato é que não encontrei mais aquelas vitaminas e fui obrigada a substituí-las por um comprimido rosa de caixa amarela...essa coisa carnavalesca promete suprir todas as carências vitamínicas e minerais que meu organismo ainda possa ter. Não sei se acredito, não dá para levar comprimidos cor-de-rosa a sério...

Notei que muitas pessoas novas apareceram neste blog e, se continuarem aparecendo certamente me farão muito feliz, apesar de eu ter dito que gosto de escrever para as paredes. O problema é que paredes não têm lá grande senso crítico, nem tampouco um bom senso estético, o que as deixa em séria desvantagem e relação a leitores de carne e osso (e mais algumas outras coisas). Agradeço a compreensão de vocês e aviso que todos os comentários estão respondidos nos próprios comments. Nunca deixo ninguém sem resposta porque sei o quanto é ruim falar com as paredes (por isso prefiro escrever para elas, mas já expliquei isso).

Cansei de tudo e não entendo muito bem o que ainda faço aqui, mesmo cansada, sentada em uma cadeira extremamente desconfortável, no escuro, olhando para essa tela brilhante e notando que tem um bichinho bem pequeno correndo perto da barra de ferramentas...ele pula, voa e pousa no mesmo lugar...é, pensando bem, existem criaturas mais confusas do que eu...
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Terça-feira, Setembro 23, 2003
 
Não, eu não sou louca. Não, não tenho dupla personalidade. Todas as pessoas são feitas de várias partes que se encaixam e formam um todo. As minhas várias partes não se encaixaram, só isso. Mas ainda são o todo. Ou parte dele.
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Estranhamente as duas únicas pessoas que comentaram neste blog deixaram apenas um recado, dizendo que comentariam mais tarde. Qual seria o motivo dessa estranha reação? Talvez fiquem tão perturbadas que precisam de um tempo para recuperarem suas faculdades mentais (deve dar uma trabalheira esse negócio de faculdades mentais, talvez estejam em período de provas).

Não tenho muito a dizer por aqui, talvez por isso mesmo tenha criado este blog, já que para falar coisas úteis e com certo sentido tenho outro espaço. Esse aqui é uma brincadeira mesmo....uma brincadeira que ninguém lê e para dizer a verdade isso muito me agrada. É gratificante escrever para as paredes porque elas quase sempre têm uma opinião isenta sobre qualquer assunto...mesmo porque as paredes têm ouvidos, mas não me consta que tenham olhos...portanto, a menos que eu comece a fazer um blog de mensagens de voz, as paredes jamais conseguirão ler o que escrevo por aqui e isso me dá uma grande sensação de privacidade.

A melhor parte de não ter nenhum compromisso com a lógica, a utilidade ou a realidade é poder escrever qualquer coisa a qualquer hora, ainda que não faça sentido algum, para absolutamente ninguém ler. A melhor parte de escrever à toa é escrever à toa. Por que as pessoas têm que ser úteis? Por que tudo que a gente faz tem que ter algum sentido? Nada tem sentido. As pessoas só têm cinco sentidos, ainda que insistam em um sexto.

Embaixo do meu monitor tem uma lista telefônica, descobri que monitores não têm pescoço e que o meu, atarracado (meu monitor, não meu pescoço), precisava de ajuda para ficar em uma altura confortável...mais confortável para mim do que para ele, diga-se de passagem, porque não deve ser muito confortável para alguém equilibrar-se sobre uma lista telefônica.

Estava pensando em passar esses textos para meu espaço normal, com meu nick normal e outras coisas normais e deletar o Suco de Uva. Mas não sei, talvez eu perca toda a pouca credibilidade que ainda tenho...melhor continuar aqui, na solitária, em um quartinho esquecido do manicômio, onde posso escrever para paredes orelhudas cegas e leitores perturbados imaginários.
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Segunda-feira, Setembro 08, 2003
 


Alcance

Se sorrirmos um para o outro
Não poderemos chorar
E se cairmos para o lado
Não estaremos em pé
E quando o sol aparece
Tudo fica claro
E no total escuro
Não há luz
As folhas verdes
Caem no chão
Enquanto as flores já foram varridas...
Assim é o vento
Que colhe mudas
De plantas que não falam
Porque são surdas
E não andam
Porque simplesmente não saem do lugar.
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Quinta-feira, Setembro 04, 2003
 

Depois do dia do post das jujubas não escrevi mais. Não sei se é porque ninguém leu, se é porque alguém leu, mas fiquei meio sem inspiração para escrever essas coisas corriqueiras do meu dia-a-dia. Meu dia é normal, é bem normal porque, como todos sabem, eu sou normal. Não sou louca, não sou lunática, nem paranóica nem nada, sou a criatura mais normal que conheço depois da minha samambaia. Converso com ela todos os dias, mas isso também é normal, muitas donas-de-casa conversam com suas samambaias e não são enviadas para clínicas psiquiátricas por causa disso (apesar de eu não ser dona-de-casa, no máximo dona-de-apartamento). Minhas samambaias me respondem. Isso também é normal, muito normal, elas não falam nada de mais, às vezes são até um pouco lacônicas, mas isso é porque elas são normais demais.

Como toda pessoa normal, durmo cedo. Bem cedo mesmo, umas seis, sete da manhã, muito cedo. Acordo umas quatro horas mais tarde após muito sonhar (dizem que loucos não sonham...pois eis aí mais uma prova de minha indiscutível sanidade mental), tomo cevada porque a cafeína pode dar alguma reação não muito agradável com os medicamentozinhos de listra preta que uso ("faixa preta" parece coisa de judô e "tarja preta" parece que o medicamento estava pelado e tiveram que censurá-lo para que aparecesse na TV em horário impróprio). Após a cevada costumo comer alguma coisa, mas não consigo me lembrar exatamente o quê. As comidas aparecem em minha cama sem que eu precise levantar para pegá-las. Todas as bandejas da casa gostam muito de mim, preparam tudo e carregam o café da manhã...não, sem café, cafeína está proibida....carregam a cevada da manhã até a minha cama para que eu não me canse. Isso também é normal, elas são minhas amigas, é natural que se preocupem comigo.

Até aí meu dia é absolutamente previsível, daí para diante qualquer coisa pode acontecer. Esses dias peguei um transporte coletivo e fui parar em um lugar repleto de gelo, onde fiquei sabendo de uma história bem normal que contarei depois...teve o dia em que fui atacada por um exército de jujubas (acho que já contei isso aqui, não?) e o dia em que conheci aquele que hoje me despreza, à beira do Lago de Suco de Uva. Essa também fica para depois.
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Terça-feira, Setembro 02, 2003
 
O Ataque das Jujubas

Sentada na sala da minha casa, lutando contra uma cefaléia incontrolável, decidida a largar o açúcar, comecei a ouvir estranhos barulhos, um farfalhar e algumas risadinhas disfarçadas. Quando virei-me, curiosa para saber quem, afinal de contas, estava fazendo aquele ruído irritante, notei, espantada, um exército de inúmeras pequenas criaturas esféricas e coloridas, cobertas de açúcar cirstal. Era um exército de jujubas histéricas, vindas sabe-se-lá de onde, para uma sessão completa de tortura. Antes que eu pudesse fugir ou me defender, fui amarrada à cadeira enquanto centenas daquelas minúsculas criaturas açucaradas dançava ao meu redor, como aborígenes canibais famintos. De súbito todas pararam e abriram espaço, reverenciando a Grande Jujuba. Era assustadora. Tinha cerca de dez vezes o tamanho das outras, era verde, coberta de açúcar cristal, com uma expressão maquiavélica. Pensei ter chegado o meu fim. Como todo condenado à morte que se preze, clamei por misericórdia:

-Por favor, não me comam.

Devo ter contado alguma piada jujubesca muito engraçada porque todas as jujubas riram convulsivamente. Até que, refeita do ataque de riso, a Grande Jujuba explicou:

-Não nos alimentamos assim tão mal. Precisamos de um estômago para cumprir nossa missão de elevar as taxas de glicose e colesterol no sangue de quem nos consumir. Você é que irá nos ingerir.

Atordoada, desesperei-me e tentei desvencilhar-me das amarras que as tais jujubas me impuseram, mas qualquer tentativa era vã, a Grande jujuba acoplou à minha boca uma espécie de funil e, uma a uma, as centenas de jujubinhas pularam, em direção ao meu estômago. Quando por fim a tortura parecia acabada, a Grande Jujuba fez a última ameaça:

-Voltarei de onde vim para trazer mais um exército jujubal a ser ingerido.

Antes de sair, educada, ela me desamarrou. Não adiantou nada, empanturrada de jujubas e ainda em estado de choque, não conseguia mover-me. Fui salva por um bando de moranguinhos que passavam pelo local naquele exato instante. Não consigo parar de pensar na ameaça da Grande Jujuba. Talvez por isso tenha começado este B-log. Precisava desabafar-me, meu terapeuta teve que ausentar-se por motivos de ordem psiquiátrica, está passando alguns dias na clínica em que estive ano passado. Será bom para ele, ou não. Depois falo da clínica, depois falo do que faço, as coisas que penso, que vejo, que sinto, que ouço, que acontecem nesse estranho mundo. Seja bem-vinda, Luna Garden, sejam bem-vindos todos, sintam-se em casa, puxem as almofadas (porque só tenho uma cadeira) e façam uma roda. Amanhã volto.
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